terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Medo de mim - Folha 1

Tudo escuro. Escuro o quarto onde me enconto, escuro o fundo de estrelas invisíveis, escuro o redondo da mesa ao fundo do corredor, escuro eu até à alma. Não sorrio por entre dentes, não choro lágrimas aquecidas por uma perda tão minha que é a tua. Não vás embora, numa noite destas, a tua voz é droga e eu, viciado em heroína. Não deixes tanto pedaço de mim à deriva. Se alguma vez deixares irão dar com o meu corpo num rio. A minha alma, no inferno. E que medo, oh que medo! Que medo tenho de te perder (tanto o tenho que já te perdi...), que sonho, que sonho o teu sussurrar no meu ouvido e que mulher és tu para mim. Mulher, senhora, mãe, irma, amiga. Estás bem ao meu lado, sinto a tua mão, sinto-a tão perto que quando me tocares vou sorrir. Até lá, esperarei.

Ainda choro sozinho no quarto. Lá no fundo, no canto onde costumamos falar, sabes, a cadeira com a vela-cinzeiro (decidi inventar esta palavra tão pouco original devido ao que fazes) à tua frente. Agora, está vazia. Nunca mais parei em tal varanda, nem mesmo nos dias solarengos em que sabe tão bem observar o vale. Agora, sabe a amargo.

A casa tem agora menos uma divisão... o teu quarto deixou de existir, não porque mexemos nele (se mexessemos, ai, o quão furiosa ficarias!) mas porque deixou de estar na rota da casa. Tem um grande x na planta, ou pelo menos, na minha planta. Não tem sentido se não o utilizas, não é? E além disso, sei que me estás a ver, à espera que entre no teu quarto para me poder chamar de cusco... Querias! Não vou ceder, não te dou esse prazer. Só se não fores embora esta noite, tenho medo de a passar sozinho.

Ainda me ouves? Preciso agora de um conselho, sim , porque és conselheira profissinal não remunerada pela minha parte (e pelas outras todas, mas essas, não falam contigo agora). Aconselha-me, mas seriamente, fico contigo ou deixo-te partir?

Joaquim Salgueiro, 20 de Janeiro de 2009

3 comentários:

Anónimo disse...

Sabes, quase que jurava que este texto se reflecte de alguma forma em mim. Fazes-me pensar o quanto tenho estado afastada de casa, da familia, de ti... Com tudo o que se passa neste momento por esta cabeça confusa, quase me esqueço o quanto é importante falar contigo, ouvir os teus conselhos mas acima de tudo, ser a tua irmâ e a tua melhor amiga.
Tu sabes o porquê e melhor que ninguém consegues perceber a minha ausência momentanea...
Tenho saudades tuas, dos momentos que passamos a conversar no dito canto da varanda com a vela cinzeiro como fiel companheira das nossas dores, agruras e desagruras...
Mesmo à distância quero que saibas que vou acompanhando sempre o teu dia a dia. Nunca me esqueço de ti e, só por isso, decidi deixar este comentário.
Adoro-te meu irmão, com todas as minhas forças, por mais pequenas que elas sejam por vezes...
Joana Salgueiro

Ekaterina disse...

Como é bom ler e aventurar me por aqui ... Ao ler , a imaginação já procura a palavra que virá aseguir!
Estão muito bem descritos : o local, o sentimento e a interrogação ( fico contigo ou deixo-te partir? ) . Como o autor anónimo da mensagem de cima disse , de alguma forma o texto se reflecte em mim. Está bastante agradável de ler( se assim se pode dizer) Beijo

Edna disse...

posso so dizer que foi no meu dia de anos que escreveste isto posso?
(: